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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tenda dos Milagres


O escritor baiano Jorge Amado retratou no livro Tenda dos Milagres, em 1969, a luta do povo negro para manter vivas as culturas negras e mestiça na Bahia. E foi justamente essa história que foi retratada na minissérie homônima, escrita por Aguinaldo Silva e Regina Braga, e que a TV Globo exibiu nos anos 80. Pedro Arcanjo (Nelson Xavier) é o personagem principal da narrativa. A partir de suas lembranças, quando ele está à beira da morte, é que o público fica conhecendo a sua história e também a do povo negro.
Tenda dos Milagres começa em 1930. Pedro Arcanjo se sente mal nas ruas do Pelourinho e é levado para a casa de Cesarina (Ângela Leal). Lá, ele começa a relembrar o seu passado. Por isso, a narrativa não começa em 1930, mas sim no ano de 1913, época em que os negros eram discriminados e perseguidos em Salvador. Ou seja, a cultura negra não tinha vez, não tinha voz, não era respeitada. Mas, com a ajuda da mãe de santo Magé Bassã (Chica Xavier) e seu pai, Xangô, Pedro Arcanjo descobre que tem uma missão: ser a luz de seu povo. E é por seu povo e pela preservação e difusão da cultura negra que Pedro Arcanjo enfrenta todo o tipo de preconceito.
Pedro Arcanjo é um mestiço pobre, que se relaciona com todo o tipo de gente, como pais de santo, prostitutas e mestres de capoeira. Ele tem algum estudo, e acaba entrando para a Faculdade de Medicina da Bahia. É claro que sua ascensão não é bem vista pela elite branca da Bahia. A começar pelo racista Nilo Argolo (Oswaldo Loureiro), um médico-legista que faz de tudo para provar a superioridade da raça branca através de pesquisas científicas. Influente e poderoso, ele conta com a ajuda do delegado Francisco Mata Negros (Francisco Milani) para reprimir as manifestações culturais dos negros.
Depois de relembrar o passado e mostrar o início da trajetória de Pedro Arcanjo, é hora de voltar para o anos de 1930. Nessa época, destaca-se o envolvimento de Pedro Arcanjo com duas mulheres: a bela Rosa de Oxalá (Dhu Moraes), mulher de seu fiel amigo e companheiro Lídio Corró (Milton Gonçalves) e a jornalista Ana Mercedes (Tânia Alves), que funda o jornal Tenda dos Milagres para lutar contra a discriminação racial. Pedro Arcanjo se apaixona por Ana Mercedes.
Pedro Arcanjo sofre na pele o preconceito dos brancos contra os negros. Mas, por ironia do destino ele descobre que é primo de Nilo Argolo. É claro que Nilo não aceita o parentesco com um negro e acaba convencendo os professores e diretores do curso de medicina a expulsarem Arcanjo da faculdade. Os alunos não aceitam essa discriminação e se revoltam. Vão para as ruas e é aí que ocorre uma tragédia. Na confusão, Lídio Corró morre, após levar um tiro de um policial. Já Pedro Arcanjo é preso, assim como Ana Mercedes.
Com as prisões, o delegado Sarmento (Ivan Candido) acredita que a revolta do povo está sob controle e que haverá um enfraquecimento do movimento negro. Isso é um engano. Cansado de tanta opressão, o povo continua revoltado e faz pressão em frente a delegacia para que Pedro Arcanjo seja libertado. O delegado está irredutível e não tem intenção alguma de se submeter a vontade do povo. Só que ele é convencido por Jerônimo (Cláudio Marzo), João Reis (Mário Lago) e o professor Fraga Neto (Gracindo Junior) de que é melhor libertar Pedro e Ana, para que não haja um derramamento de sangue. Assim, sentindo-se pressionado, o delegado decide libertar Pedro Arcanjo, que sai da prisão e é aclamado pelo povo.
Nas cenas finais da minissérie, o público retorna a acompanhar os últimos momentos de Pedro Arcanjo, que agoniza nas ruas de Salvador. Ele morre, mas a sua missão foi cumprida, pois a cultura mestiça começa a ganhar força na Bahia e em todo o Brasil.
Tenda dos Milagres fala ainda sobre os amores aparentemente impossíveis, como o de Budião (Antonio Pompeo) e Sabina (Solange Couto), que não podem ficar juntos pela incompatibilidade entre seus santos. Outro romance polêmico é entre Damião (Joel Silva) e Luísa (Julia Lemmertz). Ele, negro, ela, branca, filha de Nilo Argolo. Os dois enfrentam os preconceitos familiares e da sociedade em nome do amor e se casam. Quando descobre que sua filha casou com um negro, o professor Argolo, sofre um derrame cerebral. Com graves sequelas, ele acaba inválido, preso a uma cama.

NO LIVRO, TELEVISÃO E NO CINEMA:
Adaptar a história de um livro para a televisão é super importante, já que muitos brasileiros devido a outras necessidades não investem o seu dinheiro na compra de livros. Além do mais, ainda existe no país um grande número de analfabetos. No entanto, em 1985, quando a minissérie foi ao ar muitos brasileiros descobriram o livro Tenda dos Milagres, fazendo com que as vendas do livro aumentassem. Era a força da televisão impulsionando a literatura no Brasil.
Foram necessários 30 capítulos para contar a história de Tenda dos Milagres. É claro que grande parte das cenas foram feitas em locações de Salvador e Cachoeira, na Bahia. Porém, algumas também foram feitas no Rio de Janeiro, principalmente as de estúdio.
Para transportar para a televisão o universo descrito por Jorge Amado, foi necessário fazer uma minuciosa pesquisa, principalmente da arquitetura que compreendia os anos de 1913 e 1930. O cuidado era tanto ao retratar aquela época que foi preciso pintar as casas com as cores antigas e, em seguida, pintá-las novamente com as cores originais. Os figurinos, costumes e rituais do candomblé também mereceram atenção especial.
Assim como outras obras da literatura brasileira, Tenda dos Milagres também chegou ao cinema. Foi no ano de 1977 quando o diretor Nelson Pereira dos Santos filmou a história de Pedro Arcanjo, o ojuobá (olhos de Xangô), no Candomblé.

domingo, 22 de março de 2015

Rabo de Saia

destaque

Nos anos 80, a Rede Globo brindou os telespectadores com uma das mais divertidas minisséries: Rabo de Saia. Todo mundo queria acompanhar as aventuras do caixeiro-viajante Ezequias Vanderlei Lins, mais conhecido como Seu Quequé (Ney Latorraca), que tinha três esposas e fazia de tudo para que suas mulheres não soubessem umas das outras.
Para que os três casamentos dessem certo, Quequé mantinha suas famílias em três cidades diferentes do Nordeste. Só assim, o caixeiro-viajante acha que está a salvo e que nunca as suas mulheres vão descobrir que ele as trai. Na fictícia Nova União, em Pernambuco, por exemplo, ele vive com Eleuzinha (Dina Sfat). Em Chegança, Alagoas, mora com Santinha (Lucinha Lins), enquanto que em Catulé, Sergipe, Quequé é casado com Nicinha (Tássia Camargo).
As três esposas de Quequé são completamente diferentes, de personalidades totalmente distintas. Eleuzinha, com quem Quequé tem quatro filhos, Iraíldes (Eliane Gomes), Maninho (Rodrigo Mac Niven), Laide (Mônica de Souza) e Lili (Gabriela Bicalho) é mais liberal. É a companheira inseparável do marido. Já Santinha é religiosa e aristocrática. Ela também tem quatro filhos, sendo dois de Quequé. Santinha não gosta do apelido do seu marido, acha Quequé muito vulgar, por isso somente o chama de Ezequiel. Mais conservadora e pudica, Santinha pede que, na hora de fazer amor, Quequé apague a luz. Já ele pede a Santinha que ela solte os cabelos. Nicinha (Tássia Camargo) é a mais jovem das três esposas. Sensual e fogosa, ela faz de tudo para deixar o seu maridinho bem satisfeito. Ela o chama de Quequezão e os dois têm um filho.
Quequé vive muito feliz com suas três esposas a quem faz juras de amor eterno. Só que a história sofre uma reviravolta quando suas mulheres descobrem a traição de Quequé. E é Santinha quem o denuncia à polícia. Ele vai preso e é levado ao tribunal para julgamento. Eleuzinha, Santinha e Nicinha sofrem muito com a ausência de Quequé, assim como ele, que é incapaz de escolher uma só mulher. Afinal, ele ama suas mulheres com a mesma intensidade. Quando Santinha descobre que espera um filho de Quequé, ela retira a acusação. Livre, o caixeiro-viajante volta para os braços de suas três mulheres que o perdoam e tudo volta a ser como antes.
Seu Quequé

A história de Rabo de Saia foi inspirada no livro Pensão Riso da Noite: Rua das Mágoas, de José Condé. A adaptação ficou por conta de Walter George Durst e de seus colaboradores José Antonio de Souza e Tairone Feitosa. Ambientada no final da década de 1920, houve uma preocupação em fazer uma reconstituição cuidadosa da época. E, apesar de as cidades fictícias serem no Nordeste, muitas cenas foram gravadas em cidades mineiras, como Tiradentes.
Se a reconstituição de época tinha que ter um cuidado especial, o mesmo pode se dizer do figurino. Quequé, por exemplo, não podia se apresentar da mesma forma para suas três mulheres. Por isso, apesar dele usar sempre terno de linho e chapéu panamá, a diferença estava no tom da roupa. Ou seja, era preciso que a cor da roupa combinasse com o perfil de cada esposa. Assim para Eleuzinha, ele se vestia de bege; para Santinha, de azul-marinho; e para Nicinha, de branco. Outra diferença com relação ao guarda-roupa de Quequé era com relação a roupa de dormir. Com Eleuzinha, Quequé usava cueca samba-canção; com Santinha, pijama; e com Nicinha, ficava apenas de cuecas. Quequé também não se separava de seu relógio de bolso e dos pentes para pentear os cabelos e o bigode.
Com as mulheres também não foi diferente. Santinha, por exemplo, era uma mulher elegante, sempre usando lindos vestidos condizentes com a época. Chapéus também completavam o visual de Santinha. Eleuzinha e Nicinha se vestiam de modo mais simples.
Ney Latorraca não estava escalado para fazer o papel principal. No entanto, ao ler o roteiro, o ator gostou tanto do personagem que pediu para fazer Quequé. No início o diretor Walter Avancini não gostou da ideia, mas acabou cedendo aos apelos de Ney Latorraca. Hoje, pode-se afirmar que não há como imaginar outro ator no papel do caixeiro-viajante. Ney Latorraca interpretou Seu Quequé com maestria, tanto que este é um dos melhores papéis já desempenhados pelo ator na Rede Globo.
Apesar de Quequé ter três esposas, o público feminino torcia por um final feliz do personagem.
Depois que Rabo de Saia foi exibida em 1984, com 20 capítulos, os telespectadores ainda tiveram mais duas oportunidades para ver ou rever a minissérie: em janeiro de 1988, em 12 capítulos; e em agosto de 1990, em 10 capítulos, durante o Festival 25 Anos.
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